Brasil fica a 2 bilhões de dólares de superar os EUA nas exportações do agronegócio
O Brasil está a um passo de alcançar um feito histórico no comércio internacional. As exportações do agronegócio brasileiro atingiram US$ 169,2 bilhões em 2025, colocando o país a apenas US$ 2 bilhões de distância dos Estados Unidos, que registraram US$ 171 bilhões no mesmo período. Uma margem que, como observou o Financial Times, equivale a pouco mais de quatro dias de exportações brasileiras.
Trajetórias opostas
A aproximação entre os dois países não é obra do acaso, é resultado de trajetórias radicalmente distintas ao longo dos últimos anos. Em cinco anos, as exportações brasileiras do agronegócio cresceram 68%, enquanto as americanas avançaram apenas 14% no mesmo período. A diferença absoluta entre os dois países, que era de US$ 56 bilhões no início do século, caiu para US$ 2 bilhões em 2025, uma redução de 97% na vantagem americana.
As exportações do setor responderam por 48,5% de todas as exportações brasileiras em 2025, reforçando o papel central do agronegócio na economia do país.
Os produtos que lideram a pauta
O complexo soja seguiu na liderança em 2025, com US$ 52,9 bilhões e 132 milhões de toneladas embarcadas, representando 31,3% das exportações totais do agronegócio brasileiro. As carnes ocuparam a segunda posição, com US$ 31,8 bilhões e 10,4 milhões de toneladas exportadas. No primeiro semestre de 2026, o milho se destacou com crescimento de 20,6% em faturamento em relação ao mesmo período de 2025.
A demanda asiática como motor do crescimento
A expansão brasileira foi impulsionada sobretudo pela demanda asiática, e o contraste com os EUA nesse mercado é revelador. Entre 2022 e 2025, as exportações do agronegócio brasileiro para a Ásia cresceram 9%, enquanto as americanas caíram 25% no mesmo período. Para a China especificamente, o Brasil ampliou suas vendas em 8% nos últimos cinco anos, ao passo que os EUA registraram queda de 49%, reflexo do desgaste nas relações comerciais sino-americanas provocado pelas políticas tarifárias do governo Trump.
As limitações do lado americano
Do lado americano, há obstáculos estruturais que dificultam a retomada do crescimento. O país enfrenta o menor rebanho bovino dos últimos 70 anos e tem pouco espaço para expandir sua área de produção agrícola. A política comercial do governo contribuiu para o recuo nas exportações, com desgaste nas relações com parceiros estratégicos como China e Canadá. Nos EUA, a soja perdeu o posto de principal produto de exportação em receita para o milho, o que permitiu ao Brasil assumir a liderança isolada no mercado internacional de oleaginosas.
Emprego e tecnologia no campo brasileiro
O agronegócio brasileiro emprega cerca de 28,4 milhões de pessoas no país, segundo levantamento do Cepea em parceria com a CNA. Uma transformação tecnológica em curso ilustra bem o dinamismo do setor: desde 2019, mais de 20 mil pilotos de drones agrícolas foram certificados no Brasil, com uma rede de mais de 400 pontos de assistência técnica nos 27 estados. O perfil dos usuários também chama atenção, jovens com menos de 30 anos representam mais de 40% dos operadores dessa tecnologia, e os menores de 50 anos somam 85% do total.
O peso das perdas climáticas
Apesar do desempenho exportador expressivo, o setor convive com perdas climáticas significativas que limitam ainda mais seu potencial. Estimativas indicam que eventos climáticos adversos retiraram pelo menos R$ 200 bilhões do PIB do agronegócio brasileiro entre 1985 e 2025. A seca de 2021 e 2022 custou R$ 72 bilhões apenas à soja. Na safra 2023/2024, o calor extremo fez a produção de soja ficar 10% abaixo do esperado.
O cenário global não é mais favorável: a FAO calculou que desastres climáticos causaram perdas de US$ 3,26 trilhões à agricultura mundial nos últimos 33 anos, uma média de US$ 98,8 bilhões por ano. O El Niño em curso em 2026 adiciona mais uma camada de incerteza sobre as próximas safras brasileiras e colombianas.
2026: o ano da virada?
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras do agronegócio subiram 6% na comparação anual, chegando a US$ 87 bilhões. Projeções do Financial Times indicam que o Brasil pode ultrapassar os EUA como maior exportador agrícola do mundo ainda em 2026.
Para o setor de logística e comércio exterior, a trajetória do agronegócio brasileiro é tanto uma oportunidade quanto um desafio. Mais exportações significam mais carga, mais navios, mais portos em operação intensa e mais pressão sobre a infraestrutura logística do país. Em um ano em que rotas marítimas globais enfrentam instabilidade inédita, de Ormuz a Bab el-Mandeb, passando pelo Canal do Panamá, garantir eficiência logística para escoar a produção brasileira ao mundo é um dos maiores desafios do setor.