Macadâmia capixaba vira doces, biscoitos e gelato e chega ao mercado internacional
Uma noz de casca dourada, cultivada há mais de três décadas por famílias do Norte do Espírito Santo, ganha espaço em mercados internacionais e também chega às prateleiras como doce, biscoito e gelato. A trajetória da macadâmia em São Mateus mostra como tradição agrícola, tecnologia no campo e agregação de valor podem abrir novos caminhos para o produtor rural brasileiro.
Uma cultura que nasceu da diversificação
O cultivo começou a ganhar força em São Mateus na década de 1980, quando a agricultura do Norte capixaba passava por transformações. Até então, predominava a agricultura familiar, e os produtores buscavam novas atividades para diversificar o campo. O governo estadual participou do processo com subsídios e distribuição de mudas.
Com o tempo, os desafios da atividade levaram muitos produtores a abandonar a cultura. Algumas famílias, porém, mantiveram a produção de geração em geração, e hoje o município concentra a maior parte da macadâmia produzida no estado. O Espírito Santo é o segundo maior produtor do país, atrás apenas de São Paulo, segundo os próprios produtores.
Tecnologia para reduzir custos
A colheita é uma das etapas mais trabalhosas da cadeia. Há cerca de três anos, uma propriedade da região passou a usar máquinas que recolhem do chão as nozes que caem das árvores. A mecanização reduziu a necessidade de mão de obra, diminuiu custos e trouxe ganho de qualidade ao serviço.
O trabalho manual, no entanto, continua importante. Em uma área de aproximadamente 100 hectares, a propriedade mantém 15 funcionários fixos ao longo do ano, número que dobra, para cerca de 30, no período de colheita.
Cooperativa organiza a produção
A organização dos agricultores foi decisiva para manter a atividade. Em 1999, produtores de São Mateus criaram uma cooperativa para compartilhar conhecimento, enfrentar dificuldades e estruturar as etapas de beneficiamento e comercialização.
Hoje, a cooperativa recebe cerca de 1.600 toneladas de macadâmia por ano. Depois do beneficiamento, a noz pode ser vendida in natura ou torrada. Parte da produção abastece o mercado brasileiro, e outra parte é enviada aos Estados Unidos, a países da Europa e da América do Sul.
Valor agregado: do campo à confeitaria
Além de vender a noz, produtores da região encontraram outra forma de aproveitar a safra: transformá-la em alimentos de maior valor agregado. Em uma das fazendas, a amêndoa é usada na produção de doces, biscoitos e gelatos. A ideia nasceu de um curso de empreendedorismo, no qual uma produtora desenvolveu um doce de macadâmia, e foi ampliada quando a nova geração assumiu a administração da propriedade, com a meta de levar o produto ao Brasil e, quem sabe, ao mundo.
O processamento cria alternativas de comercialização além da venda tradicional da noz e reduz a dependência de um único tipo de produto e de um único mercado.
O que isso significa para o comércio exterior
O caso da macadâmia capixaba ilustra três movimentos importantes para quem exporta alimentos:
- Diversificação de destinos. Vender para Estados Unidos, Europa e América do Sul distribui o risco comercial, algo valioso num ano de tarifas, barreiras sanitárias e câmbio volátil.
- Agregação de valor. Exportar produtos processados, em vez de apenas a matéria-prima, tende a ampliar a margem e a fortalecer a marca do produtor.
- Cooperação como alavanca. A cooperativa dá escala, padroniza o beneficiamento e facilita o acesso a compradores internacionais, vantagens difíceis de alcançar individualmente por pequenos produtores.
Para quem quer exportar alimentos processados, cada mercado tem suas próprias exigências sanitárias, de rotulagem e de documentação, e planejar a operação com antecedência evita atrasos e custos inesperados.
A história da macadâmia em São Mateus reúne os ingredientes de um agronegócio que cresce com as próprias raízes: tradição familiar, mecanização, cooperação e criatividade na cozinha. Para o comércio exterior brasileiro, é um exemplo de que o pequeno produtor também pode ter presença internacional, desde que conte com organização, valor agregado e boa logística.