Com Ormuz bloqueado, Irã mira Bab el-Mandeb e eleva risco mundial
O cenário geopolítico no Oriente Médio acaba de ficar significativamente mais grave. O Irã pediu formalmente aos Houthis do Iêmen que se preparem para fechar o Estreito de Bab el-Mandeb caso os Estados Unidos ataquem usinas de energia iranianas, e o grupo confirmou que os preparativos já estão concluídos. A informação, apurada pela Reuters com três fontes independentes, eleva o risco a um patamar inédito: pela primeira vez na história moderna, o mundo enfrenta a ameaça simultânea de bloqueio em dois dos principais pontos de estrangulamento marítimo do planeta.
Dois estreitos, um problema sem precedente
O Estreito de Ormuz já opera sob bloqueio naval americano desde o acirramento do conflito. Agora, Bab el-Mandeb, a via que liga o Mar Vermelho ao Golfo de Áden e é passagem obrigatória entre o Golfo Pérsico e o Canal de Suez rumo à Europa, entra na equação como nova ameaça concreta.
Por Bab el-Mandeb passa cerca de 12% de todo o comércio marítimo mundial. Mais do que isso: é justamente a rota alternativa utilizada pela Arábia Saudita e por outros países produtores de petróleo quando o Estreito de Ormuz é interrompido. Em outras palavras, fechar os dois estreitos simultaneamente não apenas bloqueia o fluxo direto, elimina também a principal válvula de escape do sistema.
O cenário do petróleo a US$ 200
Um oficial sênior dos Houthis alertou publicamente que o fechamento simultâneo dos dois estreitos poderia levar o preço do petróleo a US$ 200 o barril. Um analista do Observer Research Foundation classificou esse cenário como uma possível "catástrofe" econômica global, não apenas pelo impacto direto nos preços de energia, mas pelos efeitos em cascata sobre inflação, crescimento e estabilidade financeira em todo o mundo.
Para ter dimensão do impacto: o petróleo já está acima de US$ 78 o barril com apenas Ormuz bloqueado. Um fechamento simultâneo de Bab el-Mandeb mais do que dobraria essa pressão, com consequências imediatas para diesel, gasolina, frete rodoviário e praticamente todos os setores da economia global.
A situação atual em Ormuz
Em Ormuz, a tensão já é concreta e operacional. Fuzileiros americanos inspecionaram um navio-tanque iraniano na região. Embarcações comerciais foram redirecionadas para rotas alternativas. E cerca de 20 mil marinheiros seguem retidos na área, a bordo de navios que aguardam condições seguras para navegar ou que estão cumprindo protocolos de inspeção impostos pelo bloqueio naval.
O impacto para o Brasil
Para o comércio exterior brasileiro, a escalada da crise representa riscos em múltiplas frentes:
Exportações de proteína animal, madeira e papel destinadas ao Golfo Pérsico dependem do corredor que passa por Ormuz. Com o estreito bloqueado e Bab el-Mandeb ameaçado, as rotas alternativas ficam cada vez mais longas, caras e incertas.
O trigo já sobe nas bolsas europeias por conta da guerra na Ucrânia, pressão que se soma ao cenário logístico já tensionado. Para o Brasil, que importa parte significativa do trigo consumido internamente, a alta nos preços internacionais do cereal se traduz em pressão inflacionária sobre o pão, a farinha e uma série de produtos da cesta básica.
Fretes marítimos em nova escalada. Rotas que já estavam mais longas e caras por causa de Ormuz tendem a encarecer ainda mais se Bab el-Mandeb for fechado, sem alternativa viável para parte significativa do comércio entre Ásia, Oriente Médio e Europa.
Câmbio e inflação pressionados. Petróleo a US$ 200 o barril, mesmo que como cenário extremo, teria impacto devastador sobre o preço do diesel no Brasil, o custo logístico de toda a cadeia produtiva e a inflação de alimentos e serviços.
Uma crise sem rotas de fuga
O que torna esse cenário particularmente preocupante é a ausência de alternativas viáveis em escala global. O Cabo da Boa Esperança e o Canal do Panamá já vinham absorvendo parte do tráfego desviado de Ormuz, mas ambos operam próximos à capacidade máxima. Um fechamento simultâneo de Ormuz e Bab el-Mandeb sobrecarregaria essas rotas de forma sem precedente, elevando fretes e prazos a níveis que o sistema logístico global nunca enfrentou.
A ameaça ao Estreito de Bab el-Mandeb transforma um conflito regional em um risco sistêmico para a economia global. Para importadores e exportadores brasileiros, o momento exige planejamento de contingência robusto, diversificação de rotas e parceiros logísticos capazes de reagir rapidamente a um cenário em rápida evolução.