Agro corta área de algodão e revê safra diante de risco climático
O agronegócio brasileiro entra na safra 2026/27 em modo de cautela. Com El Niño forte a muito forte no horizonte, custos elevados e Selic a 14% ao ano pressionando o custo de capital, produtores rurais e empresas agrícolas estão revisando seus planos de cultivo, reduzindo exposição a culturas de alto investimento e priorizando áreas irrigadas e commodities com melhor relação risco-retorno.
A estratégia revisada
Uma das maiores empresas agrícolas do país detalhou ao mercado a redefinição do seu planejamento para a safra 2026/27. A área total cultivada foi mantida em 165,2 mil hectares, mas a distribuição entre culturas mudou de forma expressiva.
O algodão de primeira safra foi reduzido em 70%, com o cultivo concentrado em áreas irrigadas, onde a volatilidade produtiva é menor. Em compensação, o algodão de segunda safra cresceu 36%, também com foco em áreas irrigadas. A soja recuou 5%, o feijão safrinha foi retirado do planejamento, o milho de primeira safra aumentou 22% e as pastagens cresceram 21%.
A lógica por trás das decisões é clara: reduzir a exposição a culturas de alto custo por hectare em um cenário de incerteza climática e juros elevados. O algodão de sequeiro, que pode custar entre R$ 14 mil e R$ 15 mil por hectare, se torna financeiramente arriscado quando comparado à soja em um contexto de El Niño, especialmente com a Selic a 14% ao ano elevando o custo financeiro do investimento.
Os resultados que explicam a revisão
Os números do ciclo encerrado em junho de 2026 contextualizam a mudança de rota. A receita líquida operacional chegou a R$ 891,7 milhões, alta de 2% em relação ao ano anterior, com EBITDA Ajustado Operacional de R$ 97,3 milhões, crescimento de 11%, favorecido pelos resultados de soja, milho e operações de hedge.
No entanto, a empresa encerrou o exercício com prejuízo líquido de R$ 90 milhões, revertendo o lucro de R$ 138 milhões do ano anterior. O resultado foi pressionado pela menor contribuição das vendas de fazendas e pelo desempenho da cana-de-açúcar. No algodão, a margem bruta da cultura ficou negativa em 23%, ante resultado positivo de 20% em 2025, pressionada pela queda dos preços e pelo aumento do custo unitário. Soja e milho, por outro lado, apresentaram margens brutas positivas de 20% e 21%, respectivamente.
El Niño: o fator central da equação
O Cemaden confirmou em junho de 2026 a configuração do El Niño e apontou probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. Os modelos indicam elevada possibilidade de um episódio muito forte entre a primavera e o verão de 2026, com anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial superiores a 2,0°C.
Para o trimestre de julho a setembro de 2026, o Cemaden projetou chuvas acima da média na Região Sul e abaixo da média no centro-norte do país. O cenário favorece algumas culturas em determinadas regiões, como o milho segunda safra e o algodão no Centro-Oeste, mas traz risco de temperaturas mais elevadas para pastagens e para a preparação da safra seguinte nas áreas mais sensíveis.
O secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura apontou que o principal risco do El Niño está na produtividade e na qualidade das lavouras, não necessariamente na redução da área plantada. Produtores podem responder ao cenário economizando em fertilizantes e outros insumos para reduzir a exposição financeira, o que, por si só, já impacta os volumes exportados de insumos agrícolas.
O seguro rural no centro da vulnerabilidade
Um ponto de atenção que merece destaque: o orçamento do seguro rural sofreu contingenciamento superior a 53%, com recursos destinados à subvenção ao prêmio limitados a R$ 473,8 milhões. Em um ano de El Niño forte, a redução da cobertura de seguro amplia a exposição financeira dos produtores a perdas climáticas, e pode agravar os efeitos de eventuais frustrações de safra sobre toda a cadeia do agronegócio.
A discussão sobre o seguro foi retirada do lançamento do Plano Safra para integrar uma análise interministerial mais abrangente sobre os efeitos do El Niño, o que indica que o governo reconhece a gravidade do risco, mas ainda não definiu a resposta.
O impacto para o comércio exterior
Para importadores e exportadores que operam com commodities agrícolas brasileiras, a revisão das safras tem implicações diretas:
- Algodão. A redução expressiva da área de primeira safra pode afetar o volume disponível para exportação no segundo semestre de 2026 e início de 2027, pressionando preços e prazos para compradores internacionais que dependem do algodão brasileiro.
- Soja e milho. A manutenção ou leve retração da área de soja, combinada com o risco climático do El Niño, cria incerteza sobre o volume da próxima safra, já começa a influenciar as expectativas dos mercados futuros.
- Fertilizantes e insumos. A estratégia de redução de custos por parte dos produtores pode diminuir a demanda por fertilizantes importados, impactando importadores desse segmento.