Petróleo fecha acima de 106 dólares após ataques no Oriente Médio
O petróleo Brent encerrou a segunda-feira (12 de outubro) a US$ 106,65 por barril, após novos ataques contra a Arábia Saudita e contra navios nas proximidades do Estreito de Ormuz. A escalada reacende o temor de interrupção no abastecimento global de energia e derruba qualquer perspectiva de alívio no curto prazo para o mercado de fretes marítimos.
Os ataques que moveram o mercado
A pressão sobre os preços ganhou força após os houthis do Iêmen reivindicarem um ataque contra o aeroporto internacional de Riad, na Arábia Saudita, deixando 13 mortos e mais de 300 feridos. Novos ataques ocorreram no domingo, intensificando o conflito e os riscos para um dos maiores produtores de petróleo do mundo.
Segundo analistas, refinarias sauditas estavam operando, mas cinco haviam sido temporariamente fechadas após ataques com mísseis interromperem um oleoduto para o Mar Vermelho, um sinal da vulnerabilidade da infraestrutura energética da região mesmo quando as unidades não ficam paralisadas por tempo prolongado.
No mar, a organização britânica de segurança da navegação UKMTO relatou que um petroleiro foi atingido por um drone nas proximidades de Sohar, em Omã, enquanto outro sofreu danos durante a passagem por Ormuz. Os episódios ameaçam a recuperação das exportações de petróleo do Oriente Médio observada em setembro.
Os números do petróleo e o recuo parcial desta terça
A alta superou a expectativa de alívio gerada pelo anúncio do presidente americano de que a Rússia forneceria mais de 300 mil toneladas de diesel aos mercados americano e internacional. Os contratos futuros de gasóleo da ICE chegaram a recuar 2,3% com o anúncio, mas analistas apontam limitações na capacidade de refino russa e uma liberação gradual das cargas, fatores que restringem o efeito prático da medida.
Fretes de petroleiros em território de recorde
O ambiente de insegurança nas rotas do Oriente Médio mantém os fretes de petroleiros próximos de recordes históricos. Uma das maiores armadoras de grandes petroleiros VLCCs havia contratado 50% dos dias de operação de sua frota no mercado à vista para o quarto trimestre a uma média de US$ 509.100 por dia, aproximadamente três vezes a média do trimestre anterior.
Os índices da Baltic Exchange para VLCCs, suezmaxes e aframaxes na bacia do Atlântico se estabilizaram, mas os valores para aframaxes no Pacífico continuam subindo. O mercado começa a se preocupar com um novo risco: custos elevados por tempo prolongado prejudicarem a própria demanda pelo transporte de petróleo, criando um efeito de freio sobre a atividade que os preços altos geralmente produzem no longo prazo.
Ormuz: negociações sem solução
Enquanto os preços sobem e os fretes batem recordes, a negociação sobre a reabertura do Estreito de Ormuz segue sem desfecho. O porta-voz da chancelaria iraniana afirmou que Teerã ainda analisava a resposta americana à proposta de reabertura, sinalizando que a resolução está longe.
O impasse reflete posições ainda incompatíveis: o Irã quer priorizar a segurança da passagem, enquanto Washington insiste em discutir o programa nuclear iraniano desde o início das negociações. Antes do início do conflito, em 28 de fevereiro, o Estreito de Ormuz concentrava cerca de um quinto do comércio mundial de petróleo e gás natural liquefeito, um volume que segue represado enquanto as partes não chegam a um entendimento.
O impacto para o Brasil
Para o comércio exterior brasileiro, a combinação de petróleo acima de US$ 100 e fretes de petroleiros em território de recorde tem consequências concretas em múltiplas frentes:
Diesel e frete rodoviário. O petróleo caro pressiona o preço do diesel no Brasil e, por consequência, o custo do frete rodoviário que escoa a produção do agronegócio e abastece a indústria. O subsídio federal anunciado recentemente dá algum alívio temporário, mas a pressão estrutural permanece enquanto o barril estiver acima de US$ 100.
Fretes marítimos em alta. Com petroleiros cobrando três vezes o valor do trimestre anterior, o custo do transporte marítimo em rotas que dependem do Oriente Médio segue em patamar histórico, impactando importadores e exportadores brasileiros que utilizam essas rotas.
Exportações do agronegócio. Carnes, milho, açúcar e outros produtos destinados ao Oriente Médio continuam dependendo de rotas alternativas mais longas e caras, enquanto Ormuz permanece bloqueado.
Pressão inflacionária. Energia cara é inflação cara. O repasse do custo do petróleo para combustíveis, fretes e insumos agrícolas alimenta pressão de preços que o Banco Central monitora com atenção, e que pode influenciar as decisões de política monetária nos próximos meses.