Tarifaço dos EUA: o que mudou e como isso afeta o comércio exterior do Brasil
Em abril de 2025, o governo dos Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, anunciou as chamadas "tarifas de reciprocidade", taxas extras de importação aplicadas sobre produtos de diversos países. Naquele momento, o Brasil saiu relativamente bem: recebeu uma tarifa de apenas 10%, por ser um dos poucos países com déficit comercial com os EUA.
Mas a situação mudou drasticamente em agosto de 2025. Alegando retaliação a decisões do Supremo Tribunal Federal brasileiro, especialmente o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, o governo americano impôs uma sobretaxa adicional de 40% sobre grande parte das exportações brasileiras. Na prática, muitos produtos brasileiros passaram a pagar 50% a mais para entrar nos Estados Unidos.
Quais Produtos Foram Mais Afetados?
Nem tudo foi taxado da mesma forma. O governo americano publicou uma lista com cerca de 700 exceções (produtos que continuaram pagando apenas a tarifa de 10% de abril). Entre os itens que escaparam estão petróleo, celulose, suco de laranja, minério de ferro e aeronaves.
Já os produtos que sofreram o impacto cheio da taxação de 50% incluem café, carne bovina, calçados, madeira, têxteis e produtos industrializados em geral. Os resultados foram imediatos: as exportações de café para os EUA caíram mais de 50% entre agosto e novembro, e as de madeira recuaram 55% no mesmo período.
Como o Brasil Reagiu?
O impacto nas exportações foi significativo. No acumulado de 2025, as vendas brasileiras para os EUA caíram 6,6%, somando US$ 37,7 bilhões - contra US$ 40,4 bilhões em 2024. Ao mesmo tempo, as importações de produtos americanos cresceram 11,3%, o que fez o Brasil encerrar o ano com déficit comercial de US$ 7,5 bilhões na relação bilateral.
A boa notícia é que o Brasil conseguiu compensar parte dessas perdas diversificando seus destinos. As exportações para a China cresceram 28,6% no segundo semestre, o que ajudou a segurar o saldo geral da balança comercial. No total, o superávit comercial do Brasil em 2025 ficou em US$ 68,3 bilhões ? acima do esperado.
O Novo Cenário: Fevereiro de 2026
A situação evoluiu rapidamente. Em fevereiro de 2026, o governo americano revogou as ordens executivas que impunham as tarifas específicas contra o Brasil (os 40% extras) e também as tarifas recíprocas de 10%. No lugar, foi publicada uma nova ordem executiva estabelecendo uma tarifa global de 10% para todos os países - com possibilidade de elevação para 15% em breve.
Para o Brasil, isso representa uma melhora relevante. Cerca de 46% das exportações brasileiras para os EUA passam a não ter nenhuma tarifa adicional. Setores como máquinas e equipamentos, calçados, móveis, confecções e produtos químicos, que chegaram a pagar 50%, voltam a competir com alíquota de 10%, a mesma aplicada aos demais países.
O que Isso Significa Para Importadores e Exportadores Brasileiros?
Para quem exporta para os EUA, o novo cenário é mais favorável do que o pico de 2025, mas ainda exige atenção. A tarifa de 10% (ou possivelmente 15%) continua existindo, e a imprevisibilidade da política comercial americana segue sendo um risco real.
Para quem importa produtos americanos, o dólar valorizado e o aumento das compras de produtos dos EUA em 2025 deixam um recado claro: planejar bem o câmbio e os custos logísticos é fundamental.
A principal lição do episódio para o setor é a importância da diversificação. Empresas que dependiam exclusivamente do mercado americano sofreram mais. Quem tinha alternativas, como o mercado chinês ou outros parceiros, absorveu melhor o choque.