IA impulsiona comércio mundial e pode acelerar coleta de cargas aéreas
A inteligência artificial está transformando o comércio internacional de duas formas simultâneas: como produto (gerando demanda crescente por chips e equipamentos de rede que movimentam o transporte entre países) e como ferramenta (otimizando operações logísticas e abrindo espaço para ganhos de eficiência que antes exigiriam horas de trabalho manual). Relatórios da DHL divulgados em setembro e repercutidos em outubro mostram como essa dupla transformação já é visível nos dados do comércio global.
A IA como motor do comércio de bens
Os números são expressivos. Segundo o DHL Globalisation Tracker, elaborado em parceria com a Stern School of Business da Universidade de Nova York, os produtos que viabilizam a inteligência artificial responderam por 42% do crescimento do comércio de bens em 2025. No primeiro trimestre de 2026, essa participação saltou para 76%.
O presidente-executivo da DHL Express resume bem a lógica por trás do número: o funcionamento da tecnologia depende da entrega de semicondutores, equipamentos de transmissão de dados e outros componentes no lugar e no momento necessários. Sem logística, não há IA.
Essa demanda já alterou o perfil dos embarques aéreos. Uma análise da Dimerco aponta que cargas relacionadas à IA e aos semicondutores passaram a dominar a capacidade aérea de saída do Sudeste Asiático, espaço que antes era ocupado principalmente pelo comércio eletrônico. É uma mudança estrutural no perfil das cargas aéreas da região, com impacto direto na disponibilidade de espaço e nos fretes para outros tipos de mercadoria.
8 horas economizadas por embarque
A IA não apenas gera demanda por transporte, ela também está mudando como o transporte é planejado e executado. Em apresentação no Aviation Connect, realizado em Atenas, o presidente-executivo do CHI Cargo Group apresentou uma estimativa de economia de aproximadamente oito horas por embarque em operações de carga aérea.
A proposta é direta: começar o despacho de caminhões e o planejamento da coleta antes da ordem de liberação que tradicionalmente aciona essas atividades. Em vez de aguardar a liberação formal da carga para então iniciar o processo de coleta, gerando tempo ocioso, sistemas inteligentes permitem antecipar essas decisões com base em dados em tempo real.
É importante contextualizar o dado: trata-se de um ganho potencial identificado na análise, não de uma redução já alcançada de forma generalizada na indústria. Mas o potencial é relevante, especialmente para operações de carga aérea urgente, em que horas fazem diferença concreta.
O que os sistemas de IA já fazem na logística
O DHL Logistics Trend Radar 8.0 detalha como a inteligência artificial avança do apoio às tarefas para sistemas capazes de planejar, decidir e agir em direção a objetivos definidos. Entre as aplicações já em desenvolvimento ou implementação estão antecipar faltas de estoque antes que ocorram, redirecionar embarques em tempo real diante de interrupções nas rotas, ajustar a capacidade de transporte de forma dinâmica, identificar padrões em grandes volumes de dados para prever resultados e recomendar ações, e apoiar equipes operacionais com robôs colaborativos, sensores e assistentes digitais que reduzem atividades repetitivas.
A adoção dessas tecnologias, no entanto, exige preparação. O relatório ressalta a necessidade de desenvolver competências nas equipes e manter supervisão humana, transparência nos processos e segurança cibernética à medida que sistemas autônomos assumem responsabilidades crescentes no planejamento de estoques e transportes.
O crescimento do comércio asiático
Os efeitos comerciais da corrida pela IA são especialmente visíveis na Ásia Oriental e no Pacífico. O valor das trocas da região cresceu 24% nos primeiros cinco meses de 2026 em relação ao mesmo período de 2025, muito acima dos 12% registrados pela Europa e dos 11% da África Subsaariana no mesmo intervalo. A participação do comércio realizado dentro da própria região asiática também aumentou, de 57% em 2025 para 60% entre janeiro e maio, apoiada pelas cadeias que atendem à infraestrutura de IA.
O contraponto do Oriente Médio
Esse crescimento convive com interrupções significativas. O conflito no Oriente Médio afetou rotas e levou à suspensão de voos, com consequências mais fortes para economias dependentes do Estreito de Ormuz. Entre janeiro e maio de 2026, o valor do comércio da Arábia Saudita caiu 37% e o dos Emirados Árabes Unidos recuou 7% na comparação anual, números que ilustram o impacto concreto do bloqueio sobre países do Golfo.
Apesar desses obstáculos, o Globalisation Tracker projeta crescimento médio de 3,4% ao ano no comércio mundial de bens até 2029, acima dos 2,7% registrados na década anterior. A IA aparece como um dos principais motores desse crescimento projetado.
O que isso significa para o Brasil
Para o comércio exterior brasileiro, as tendências descritas pelos relatórios da DHL têm implicações em diferentes dimensões.
Na importação de tecnologia. A demanda crescente por chips e equipamentos de IA pressiona a capacidade aérea de saída da Ásia, o que pode encarecer e dificultar o transporte de outros tipos de mercadoria oriunda da região, incluindo componentes eletrônicos e produtos industriais importados pelo Brasil.
Na competitividade logística. Operadores e embarcadores que adotarem mais rapidamente ferramentas de IA para planejamento de estoques, rotas e coletas ganharão eficiência e redução de custos, vantagem competitiva crescente em um ambiente de fretes ainda elevados.
No perfil das exportações. À medida que a demanda global por infraestrutura de IA cresce, o Brasil, com reservas de minerais críticos como terras raras, lítio e nióbio, tem uma oportunidade concreta de ampliar sua participação nessa cadeia como fornecedor de matérias-primas estratégicas.