Dólar dispara e bolsa despenca após eleição
Os mercados reagiram com força ao resultado da eleição presidencial. O dólar chegou à região de R$ 5,60, o Ibovespa despencou e a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. Para importadores e exportadores, a turbulência traz efeitos opostos: encarece quem compra em moeda estrangeira e pode melhorar a competitividade de quem vende ao exterior.
O tamanho do movimento
O dólar comercial abriu a R$ 5,42, alta de 8,65% sobre os R$ 4,99 do fechamento de sexta-feira, e depois alcançou R$ 5,60. Na bolsa, o Ibovespa chegou a cair 10%, o que interrompeu as negociações por 30 minutos. Após a retomada, o índice recuou cerca de 16% no pior momento.
A pressão também atingiu juros e títulos públicos. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana, e investidores passaram a exigir prêmios maiores diante das dúvidas sobre as contas públicas. O real chegou a perder cerca de 12% frente ao dólar. As atenções agora se voltam para a escolha do próximo ministro da Fazenda e para os sinais de disciplina fiscal.
O efeito direto na importação
O câmbio pesa na importação além do preço acertado com o fornecedor. Na DUIMP, o valor em moeda estrangeira é convertido em reais para formar o valor aduaneiro, que serve de base para o cálculo dos tributos. Declarações registradas com o dólar mais alto geram valores maiores em reais e, consequentemente, mais tributos a pagar.
Isso também influencia a data de registro. Quando há margem operacional, alguns importadores antecipam a DUIMP esperando nova alta do dólar, enquanto outros adiam esperando uma taxa melhor. A decisão, porém, não depende só da cotação: disponibilidade da carga, documentação, licenças e exigências aduaneiras também definem quando a declaração pode ser registrada. Em dias de forte oscilação, a diferença entre as taxas de dois dias seguidos pesa mais no custo final.
Cautela com as projeções
Um especialista em câmbio avalia que a insegurança política e jurídica após o resultado é o principal fator concreto por trás da reação. A decisão do candidato derrotado de não reconhecer inicialmente o resultado alimentou essa incerteza. Na avaliação do analista, boa parte dos movimentos tem forte componente emocional, o que torna prematuro apontar uma tendência definitiva. O reconhecimento do resultado por governos e lideranças estrangeiras, assim como uma eventual aceitação interna, poderia ajudar a acomodar os mercados.
Ele lembra ainda que parte das decisões que pressionam os ativos brasileiros vem de investidores no exterior e se reflete rapidamente por aqui.
Entre as projeções, o Morgan Stanley indicou que o dólar poderia testar R$ 5,50 num primeiro movimento de reprecificação. Num cenário mais adverso, sem cortes de gastos e com piora da percepção fiscal, o banco considera possível uma aproximação de R$ 6, com juros interbancários para janeiro de 2029 em torno de 16,5%. É um cenário de estresse, não uma previsão consolidada.
O que muda para importadores e exportadores
Importadores. Os custos sobem em reais, e os tributos acompanham. Se os juros seguirem altos, o financiamento de estoques e capital de giro também encarece, justamente quando é preciso mais reais para pagar compromissos em dólar. Avaliar o custo antes de assumir novas obrigações cambiais sem proteção passa a ser prioridade.
Exportadores. Quem tem receita em dólar e custos concentrados em reais tende a ganhar competitividade. A vantagem, porém, precisa ser calculada com cuidado, descontando os custos que também são dolarizados, como insumos, fretes e sobretaxas de armadoras.
Para todos, ganham importância a proteção cambial, a revisão de margens, a negociação de prazos e o casamento entre receitas e despesas em moeda estrangeira.
A duração desse choque depende dos sinais da política econômica e do ambiente político nas próximas semanas. Movimentos registrados sob forte tensão não devem ser tratados, isoladamente, como indicação do comportamento do mercado nos próximos meses. Para quem opera no comércio exterior, acompanhar câmbio, juros e política fiscal e manter flexibilidade no planejamento é o caminho mais seguro.